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O Clinical Dementia Rating (CDR) – versão em português (Brasil) visa classificar estadiamento/gravidade do comprometimento cognitivo em idosos, integrando cognição, comportamento e o impacto funcional nas atividades de vida diária (AVDs), com ênfase em comparação com o desempenho prévio do próprio indivíduo (evita dependência de normas populacionais e de escolaridade como eixo central).
Formato:
Entrevista clínica não estruturada, conduzida por examinador, com informações de informante (preferencialmente cônjuge/filho que conviva diariamente; alternativamente parente próximo/vizinho) e julgamento clínico para cada domínio.
Tempo médio de aplicação:
Não estimado (entrevista clínica)
População-alvo:
Idosos (> 65 anos)
Usos recomendados:
Estadiamento clínico da gravidade da demência (leve/moderada/grave).
Identificação de casos questionáveis (CDR=0,5), potencialmente compatíveis com quadros prodrômicos (p.ex., transtorno cognitivo leve) e maior risco de conversão.
1. Estrutura do instrumento:
Número total de itens: 6 domínios
Tipo de resposta: Escala por domínio: 0 (sem alteração), 0,5 (questionável), 1 (leve), 2 (moderada), 3 (grave).
Organização: 6 categorias (domínios): Memória; Orientação; Julgamento/Solução de problemas; Relações comunitárias; Atividades no lar/passatempos; Cuidados pessoais.
2. Descrição das subescalas, dimensões ou fatores:
Memória (domínio primário)
Mede: perda de memória (especialmente eventos recentes) e impacto funcional.
Orientação
Mede: orientação temporal/espacial/pessoal.
Julgamento e solução de problemas
Mede: capacidade de lidar com problemas do dia a dia, julgamento social, abstração aplicada.
Relações comunitárias
Mede: funcionamento fora de casa (trabalho, compras, grupos sociais/finanças), independência comunitária.
Lar e passatempos
Mede: manutenção de atividades domésticas, lazer, hobbies e interesses intelectuais.
Cuidados pessoais
Mede: autonomia para higiene/vestir/auto-cuidado básico, continência como marcador de gravidade.
3. Pontuação e faixas de interpretação (cutoffs):
O CDR não depende de pontos de corte normativos populacionais; a referência é o declínio em relação ao próprio passado.
Escala por domínio: 0 (sem alteração), 0,5 (questionável), 1 (leve), 2 (moderada), 3 (grave).
4. Mudança clínica e sensibilidade:
O estudo brasileiro não apresenta dados de sensibilidade à mudança, RCI ou MCID, nem estabelece periodicidade de reaplicação.
O artigo original descreve acompanhamento de 6–9 meses em amostra (tendência de estabilidade/progressão, e heterogeneidade do grupo 0,5), mas isso é evidência de uso longitudinal no contexto original e não uma métrica formal de responsividade.
5. Cuidados éticos e limitações de aplicação:
Dependência de informante: principal dificuldade relatada nos estudos foi selecionar informante que conviva diariamente e conheça rotina passada/atual; inconsistências podem exigir refazer entrevista com outro informante. Implicação: risco de viés quando informante é pouco disponível, superprotetor, ou com baixa acurácia observacional.
Não usar isoladamente como “diagnóstico”: o estudo valida o CDR frente a diagnóstico clínico (DSM-IV/NINCDS-ADRDA) e testes; o CDR é classificador de estágio, devendo ser integrado à entrevista clínica, exame do estado mental, história funcional, avaliação médica e neuropsicológica quando indicada.
Risco de superidentificação de “questionáveis”: quase metade dos não-casos foram 0,5; isso pode ser útil (captura risco/prodromia), mas exige cuidado para não rotular como demência sem confirmação longitudinal e avaliação diferencial (depressão, queixas subjetivas, fatores educacionais/culturais, etc.).
6. Sugestões para análise clínica:
Formulação de caso:
Mapear discrepâncias entre domínios (p.ex., memória com preservação relativa de cuidados pessoais) ajuda a formular hipóteses de comprometimento inicial vs estágio avançado, e a diferenciar queda cognitiva de incapacidade por condições clínicas não cognitivas (o CDR orienta focar prejuízo por cognição).
Planejamento terapêutico e manejo:
Escores elevados em Relações comunitárias e Lar/passatempos tendem a sinalizar prejuízos funcionais com impacto em autonomia; isso pode orientar intervenções com família (supervisão, organização ambiental, segurança, finanças, direção, adesão a rotinas). (O estudo descreve esses domínios como captadores de interferência funcional).
Este instrumento deve ser utilizado emprengando-se uma entrevista clínica não estruturada:
Escolha do informante: preferir cônjuge/filho que conviva diariamente; se não houver, o parente mais próximo; se mora sozinho, pode ser vizinho próximo.
Entrevista clínica (não estruturada): conduza com o informante, pedindo exemplos concretos do dia a dia e comparando funcionamento atual vs passado do idoso.
Checagem de consistência: se as informações forem inconsistentes/insuficientes, refaça com outro informante.
Classifique os 6 domínios: Memória; Orientação; Julgamento/Solução de Problemas; Relações comunitárias; Lar/passatempos; Cuidados pessoais.
Hughes, C. P., Berg, L., Danziger, W., Coben, L. A., & Martin, R. L. (1982). A new clinical scale for the staging of dementia. The British journal of psychiatry, 140(6), 566-572.
Macedo Montaño, M. B. M., & Ramos, L. R. (2005). Validade da versão em português da Clinical Dementia Rating. Revista de Saúde Pública, 39, 912-917. https://www.scielo.br/j/rsp/a/K3TRXLdkq7T7C3chjHTPV6S/?lang=pt&format=pdf