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O Clinical Impairment Assessment Questionnaire (CIA 3.0) é um instrumento de autorrelato composto por 16 itens, desenvolvido para avaliar o grau de comprometimento psicossocial causado por características de transtornos alimentares nos últimos 28 dias. Ele foi desenhado para ser aplicado imediatamente após a avaliação de características atuais de transtornos alimentares (ex.: EDE-Q) para garantir que essas características estejam bem claras na mente do respondente.
Tempo médio de aplicação
5 minutos
População-alvo
Adultos (> 18 anos)
Usos recomendados
Triagem de significância clínica/impacto funcional associado a sintomas de Transtornos Alimentares (complementar ao EDE-Q ou entrevista).
Apoio à decisão de “caso clínico”.
Monitoramento de resposta ao tratamento (sensível à mudança; útil em reavaliações).
Pesquisa/epidemiologia clínica sobre carga funcional dos Transtornos Alimentares (com limitações pela ausência de normas populacionais).
1. Estrutura do instrumento:
Número total de itens: 16 itens
Tipo de resposta: Likert de 0 a 3 por item (0 = “nada”; 3 = “demais”).
Organização: 3 dimensões (Prejuízo Pessoal; Prejuízo Social e Prejuízo Cognitivo)
2. Descrição das subescalas, dimensões ou fatores:
O que mede: impacto emocional/autoavaliativo e sofrimento pessoal associado à psicopatologia de Transtornos Alimentares (culpa, vergonha, autocrítica, sensação de fracasso, preocupação, estar “muito chateado”). Clinicamente, captura o impacto do Transtornos Alimentares na identidade, humor e autoconceito.
O que mede: restrições e conflitos em socialização e relacionamentos por causa de comer/exercício/forma/peso (evitar sair, dificuldade de comer com outros, interferência em relações e atividades prazerosas).
O que mede: efeitos de Transtornos Alimentares sobre atenção, memória, tomada de decisão e desempenho (inclui item de trabalho quando aplicável).
3. Pontuação e faixas de interpretação (cutoffs):
A interpretação do CIA 3.0 baseia-se no escore total, que reflete o grau de comprometimento psicossocial causado por características de transtornos alimentares. No estudo original, um ponto de corte de 16 é utilizado para identificar indivíduos com impacto psicossocial significativo, indicando um provável caso clínico de transtorno alimentar. No entanto, não há pontos de corte validados para o Brasil.
Uma pontuação maior indica um impacto psicossocial mais severo.
4. Mudança clínica e sensibilidade:
Há evidência direta de sensibilidade à mudança com terapia cognitivo-comportamental transdiagnóstica: grande redução média do CIA pré→pós e correlação alta entre mudança no CIA e mudança na avaliação clínica de prejuízo (rs=0,86).
RCI/MCID: o estudo não apresenta índices de mudança confiável (RCI) ou diferença clinicamente importante mínima (MCID).
Uso longitudinal: apropriado para reavaliações seriadas (mantendo a janela de 28 dias). A frequência prática pode seguir marcos de tratamento (início, meio, alta, follow-up).
5. Cuidados éticos e limitações de aplicação:
Não usar isoladamente para diagnóstico: o CIA mede impacto; deve ser integrado a entrevista clínica, avaliação de sintomas (ex.: EDE-Q/EDE) e contexto (comorbidades, estressores).
O CIA não avalia prejuízo físico secundário aos Transtornos Alimentares; recomenda que esse componente seja avaliado por médico em paralelo.
Limitações de generalização: amostra relativamente pequena, poucos casos de anorexia nervosa, ausência de controles saudáveis e necessidade de replicação em amostras com maior diversidade (idade/etnia/composição diagnóstica).
Em comorbidades relevantes (p. ex., depressão maior grave), parte do prejuízo pode não ser “secundário” ao TA — o estudo inclusive excluiu tais casos para proteger validade do construto. Clinicamente, isso pede cautela na atribuição causal do prejuízo.
Não há estudos de validade fatorial para o Brasil.
6. Sugestões para análise clínica:
Pontuações altas: investigar se o prejuízo se distribui mais em Pessoal (sofrimento/autoimagem), Social (evitação/isolamento) ou Cognitivo (desatenção/desempenho). Use isso para priorizar alvos:
Pessoal alto: trabalhar vergonha/culpa, autocrítica, padrões de valor pessoal, regulação emocional; avaliar risco de desistência por desmoralização.
Social alto: mapear evitamentos (comer com outros, eventos), planejar exposições graduadas e reconstrução de atividades prazerosas/relacionais.
Cognitivo alto: ajustar complexidade das tarefas terapêuticas, abordar ruminação e organização de rotina; considerar efeitos de restrição alimentar/sono/ansiedade no funcionamento.
Combine o CIA com medidas de sintoma (EDE-Q) para diferenciar: redução de sintomas vs redução de prejuízo (podem se dissociar em fases do tratamento).
Bohn K, Fairburn C. Clinical Impairment Assessment Questionnaire. 2008.
Moser CM, Terra L, Behenck AD, Brunstein MG, Hauck S. Cross-cultural adaptation and translation into Brazilian Portuguese of the instruments Sick Control One Stone Fat Food Questionnaire (SCOFF), Eating Disorder Examination Questionnaire (EDE-Q) and Clinical Impairment Assessment Questionnaire (CIA). Trends Psychiatry Psychother. 2020;42(3):267-71.