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Objetivo clínico do instrumento:
Este diário tem por objetivo auxiliar o paciente a monitorar de modo sistemático os episódios de procrastinação, ou seja, situações em que ele adia uma tarefa relevante apesar de ter a intenção de realizá-la, bem como identificar aspectos contextuais (emoções, pensamentos, comportamentos, gatilhos e reforços) que mantêm esse padrão.
Público-alvo
Adultos ou adolescentes (acima de aproximadamente 16 anos) que na prática clínica reportam uma dificuldade persistente em iniciar ou concluir tarefas importantes, independentemente de nível de escolaridade ou área de atuação.
Finalidade do instrumento
Favorecer a autoconsciência do paciente sobre o padrão procrastinatório (frequência, intensidade, contexto, consequências).
Produzir dados ecológicos para serem usados na formulação clínica (ex.: análise funcional da procrastinação, identificação de crenças disfuncionais, reforçadores de curto prazo etc.).
Servir como base para intervenção, tanto para gerar hipóteses terapêuticas (ex.: medo de fracassar, evitamento emocional, baixa autoeficácia, ambiente de distração) quanto para acompanhamento dos progressos durante a TCC.
Fenômeno psicológico avaliado
A procrastinação é contemplada como comportamento de evasão ou adiamento voluntário de tarefas aversivas ou relevantes, mediado por pensamentos, emoções e manutenção por reforço negativo/positivo. Conforme revisão nacional, é um problema frequente, com relação à falha de autorregulação, autoeficácia reduzida, impulsividade e aversividade da tarefa (Brito & Bakos, 2013).
Como o instrumento será usado pelo paciente
O paciente receberá uma notificação para preencher ao diário e será orientado a preenchê-lo ao final de cada dia (ou ao menos nos dias em que percebeu ter procrastinado), idealmente por 1-2 semanas para início de trabalho. Em cada registro, ele irá registrar o que foi adiado, os pensamentos/emções/efeitos no momento, o que fez ou não fez, e refletir sobre as consequências. O terapeuta utiliza esses registros nas sessões para revisar os padrões, rever estratégias de intervenção (ex.: divisão da tarefa, controle de estímulos, técnicas de ativação comportamental, reestruturação cognitiva) e monitorar mudança.
Principais usos clínicos e contextuais
Análise funcional inicial da procrastinação: identificar gatilhos emocionais, cognitivos, comportamentais e ambientais.
Monitoramento de progresso ao longo da terapia (diminuição de intensidade, frequência ou impacto da procrastinação).
Suporte para intervenção: gerar material para psicoeducação (ex.: cliente vê que não se trata de “falta de força de vontade”, mas de evitação emocional ou auto-crítica) e para construção de estratégias de enfrentamento (ex.: micro-tarefas, regra dos 5 minutos, controle de estímulos, outros).
Limitações e cuidados específicos
Trata-se de um instrumento de automonitoramento, não de escala psicométrica validada; portanto, não substitui avaliação diagnóstica completa ou outros instrumentos de mensuração.
Requer que o paciente seja capaz de autorrelatar com regularidade, se houver nível muito baixo de motivação ou concentração, pode haver dificuldade de adesão.
A procrastinação pode ocorrer em contexto de comorbidades (ex.: TDAH, depressão), é importante que o terapeuta avalie tais fatores.
É fundamental que o terapeuta faça acompanhamento, interpretação e intervenção; o diário por si só não “resolve” a procrastinação.
Estrutura do instrumento
Total de itens: 11
Formato das respostas: algumas em escala (por exemplo 0-10), outras em resposta aberta/texto.
Aplicação: sugerido diariamente ou em dias de tarefa adiada, por 1-2 semanas e após isso semanalmente para revisão, dependendo do caso.
Significado das respostas na prática clínica
Intensidade elevada (ex.: 8-10) de “nível de procrastinação” ou adiamento sinaliza alto impacto funcional.
Constância ou repetição de contextos (ex.: sempre em tarefas “chatas”, ou sempre em casa, ou sempre junto de celular/distração) indica circuito mantentor ambiental/cognitivo.
Registro de gatilhos e emoções permite explorar hipóteses como: perfeccionismo, medo de fracassar, tédio, impulsividade, baixa autoeficácia. Conforme a literatura nacional, crenças como “se não for perfeito não vale começar” e autocrítica são comuns.
Consequências anotadas (culpa, atraso, dívida de tempo, impacto no sono) ajudam o paciente a construir consciência das desvantagens, o que pode ativar motivação para mudança.
Como identificar padrões gerados pelo instrumento
Frequência: quantos dias/quantas tarefas foram adiadas.
Intensidade média: escore médio da escala 0-10.
Contextos recorrentes: local, companhia, horário, tipo de tarefa.
Associação gatilho-emoção-comportamento: ex.: “quando estou cansado e vejo aviso de tarefa grande, sinto ansiedade, então abro o celular e adio por 30 minutos”.
Mudança ao longo do tempo: idealmente, o escore de intensidade ou a frequência devem diminuir, ou o paciente antes adiava e agora inicia a tarefa com sessão de 5 min, etc.
Análise multidimensional do instrumento (cada fator pode indicar uma área de intervenção):
Cognições: se elevadas, trabalhar reestruturação cognitiva, crenças sobre falha/perfeição.
Emoções: se forte presença de ansiedade ou tédio antes de iniciar a tarefa, trabalhar regulação emocional, mindfulness.
Comportamento: se as respostas indicam que especialmente “começo mas abandono”, aplicar técnicas de ativação comportamental, micro-tarefas.
Ambiente/contexto: se os registros apontam muitos fatores ambientais (distrações, ambiente inadequado), trabalhar controle de estímulos e planejamento do ambiente.
Integração com avaliação clínica
O terapeuta pode usar os dados para formular hipótese funcional: identificar as contingências antecedentes (gatilhos contextuais, emocionais e cognitivos) e consequentes (adiamento, reforço de alívio imediato, culpa posterior). A partir daí, desenhar intervenção combinada: psicoeducação, ativação comportamental, reestruturação cognitiva e controle de estímulos.
Limitações e cuidados
O diário sozinho não indica causalidade, apenas associações.
Pode haver viés de autorrelato ou esquecimento; complemento com entrevista é importante.
Não é substituto para avaliação de comorbidades (ex.: depressão, TDAH, transtorno de ansiedade) que podem agravar a procrastinação.
Deve ser integrado numa abordagem terapêutica ampla, não isolado.
Sugestões para análise clínica
Use os escores para monitorar mudança: por exemplo, “antes escore médio = 7, após 4 semanas escore médio = 4” - isso pode sugerir algum progresso.
Verifique se há redução de intensidade percebida, frequência ou impacto funcional (ex.: menos atraso, menos culpa, menos ansiedade).
Fatores elevados (ex.: cognições de perfeccionismo) orientam para foco terapêutico naquele domínio.
Combine este diário com outros instrumentos/intervenções.
Utilizar nas sessões de retorno: revisar o diário com o paciente, explorar “quando você procrastinou, o que estava sentindo/pensando? O que poderia ter feito diferente?”, fomentar reflexão e replanejamento.
Cuidados éticos
Nunca usar o diário como única fonte, a abordagem deve ser colaborativa.
Assegurar que o paciente compreenda que o objetivo é auxiliar e não julgamento.
Caso o uso do diário gere ansiedade excessiva ou culpa, o terapeuta deve intervir para regularizar e garantir que o recurso seja útil e não contraproducente.
Este diário serve para ajudá-lo(a) a acompanhar diariamente como você reage quando adiar ou evitar tarefas que considera importantes.
Não precisamos de “perfeição” no preenchimento, o mais importante é a sua honestidade e o registro regular. Na próxima sessão, iremos juntos revisar o que você registrou e usar essas informações para planejar ações.
Ao final de cada dia (ou nos dias em que você adiar/evitar uma tarefa), preencha as perguntas deste diário. Se possível, reserve 2-3 minutos para isso. Faça o seu melhor, mesmo se não tiver registrado todos os dias, o que preencher será muito útil para as nossas próximas sessões.
Construída e desenvolvida por Natália Matteoli Abatti (CRP-08/35785)
Inspirado em Leahy, R. L. (2018). Técnicas de terapia cognitiva: manual do terapeuta (2ª ed.). Porto Alegre: Artmed.
Brito, F. D. S., & Bakos, D. D. G. S. (2013). Procrastinação e terapia cognitivo-comportamental: uma revisão integrativa. Revista brasileira de terapias cognitivas, 9(1), 34-41.
Talask, G., & de Carvalho, M. R. (2017). Cognitive behavioral based treatment for procrastination. Psychology and Behavioral Science International Journal, 8(1), 555727