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A Entrevista Baseada em Processos (EBP) é uma ferramenta de análise funcional e formulação de caso estruturada para mapear a "rede" de processos psicológicos que sustentam o sofrimento do paciente. Diferente de escalas diagnósticas que buscam sintomas (o que o paciente tem), este instrumento busca identificar mecanismos dinâmicos (o como e o porquê o problema se mantém). Seu objetivo central é transpor as queixas do paciente para os três mecanismos evolutivos de mudança: Variação (repertório), Seleção (função) e Retenção (manutenção).
Público alvo do instrumento
Este instrumento é destinado a profissionais de saúde mental (psicólogos e psiquiatras) para aplicação em pacientes adultos ou adolescentes que já estejam em processo psicoterapêutico ou em fase de avaliação inicial. É uma ferramenta transdiagnóstica, adequada para qualquer quadro clínico (ansiedade, depressão, transtornos de personalidade, etc.), pois foca em processos universais.
Finalidade do instrumento
A finalidade é guiar o terapeuta na construção de uma Formulação de Caso Baseada em Processos. O instrumento disseca a experiência do paciente em 8 dimensões (Atenção, Cognição, Self, Afeto, Comportamento, Motivação, Biofisiologia, Sociocultural), investigando em cada uma delas onde reside a rigidez (falta de variação), qual a função do sintoma (seleção) e o que impede a mudança (retenção).
Qual fenômeno psicológico o instrumento avalia?
O instrumento foi contruído com base na literatura da Terapia Baseada em Processos, que parte do princípio de que todo comportamento humano - incluindo pensamentos, emoções, padrões motivacionais, fisiologia e formas de se relacionar - é influenciado por uma rede dinâmica de processos psicológicos. Especificamente, ele investiga a interação entre dimensões biopsicossociais sob a ótica da ciência evolutiva:
Variação: refere-se à amplitude de respostas possíveis que uma pessoa apresenta em determinadas situações. Envolve investigar o que aparece, o que não aparece e o que se repete com rigidez quando o indivíduo enfrenta suas dificuldades. Aqui buscamos identificar se há flexibilidade suficiente ou se o repertório do cliente está empobrecido, estreito ou disfuncional. Variação descreve o campo das possibilidades.
Seleção: analisa para que essas respostas estão servindo dentro da vida do cliente. Não se trata de moralizar ou julgar, mas de compreender a função que cada padrão cumpre na rede: evitar dor, buscar controle, reduzir ameaça, proteger autoestima, manter vínculos, regular emoções ou preservar previsibilidade. A seleção revela quais respostas ganham força porque produzem consequências imediatas que, mesmo desadaptativas a longo prazo, ajudam o cliente a sobreviver psicologicamente no curto prazo.
Retenção: investiga como e por que certos padrões se mantêm cronicamente na rede, mesmo quando já não fazem sentido ou produzem sofrimento. Aqui observamos ciclos de reforço, hábitos, contextos que mantêm o padrão vivo e mecanismos que fazem com que respostas mais saudáveis, quando surgem, não consigam se estabilizar. Retenção descreve como os padrões se cristalizam.
Quando aplicamos esses três mecanismos a diferentes dimensões da experiência humana - atenção, cognição, self, afeto, comportamento, motivação, biofisiologia, contexto e sociocultural - conseguimos construir uma análise funcional profunda, integrativa e baseada em processos. Essa abordagem revela não apenas o que o cliente faz, pensa ou sente, mas como esses processos se organizam, se retroalimentam e sustentam o sofrimento ao longo do tempo.
A Entrevista foi construída para guiar o terapeuta de forma prática e sistemática por esses três princípios, permitindo identificar mecanismos centrais de manutenção e pontos potenciais de mudança.
Como o instrumento será usado pelo(a) profisisonal
Embora seja uma entrevista guiada pelo terapeuta, o paciente a vivencia como uma investigação colaborativa. O paciente não preenche o formulário sozinho; ele responde a perguntas reflexivas que o ajudam a "olhar para fora" de sua própria experiência e observar a função de seus comportamentos. O processo de responder já funciona como uma intervenção de autoconhecimento e desfusão.
Quais são os principais usos clínicos e contextuais?
Início do tratamento: Para sair de descrições vagas ("estou triste") para mecanismos precisos ("meu afeto triste serve para evitar confrontos sociais").
Estagnação terapêutica: Quando a terapia trava, o instrumento ajuda a identificar qual "nó" da rede (ex: biofisiológico ou cognitivo) está impedindo a evolução.
Planejamento de Intervenção: Permite escolher técnicas cirúrgicas. Se o problema é falta de variação no afeto, usa-se exposição emocional. Se o problema é retenção de hábitos antigos, usa-se manejo de contingências.
Limitações e cuidados específicos para o tipo de instrumento gerado
Não é diagnóstico: Não fornece CIDs ou DSMs.
É interessante que o profissional compreenda sobre Análise Funcional e Terapia Baseada em Processos.
Subjetividade: As respostas dependem da capacidade de insight do paciente no momento.
Estrutura do instrumento
O instrumento é composto por 8 dimensões horizontais (Atenção, Cognição, Self, Afeto, Comportamento, Motivação, Biofisiológico, Sociocultural) cruzadas com 3 colunas verticais de mecanismos evolutivos:
Variação (O repertório disponível).
Seleção (A função/consequência).
Retenção (A manutenção/história).
Significado das respostas na prática clínica
Variação (Onde está a rigidez?)
Respostas indicando problema: "Sempre faço a mesma coisa", "Não vejo outra saída", "Minha mente só foca no perigo". Podem indicam repertório mais rígido.
Respostas indicando saúde: Capacidade de notar diferentes perspectivas, sentir emoções variadas ou se expor a novos comportamentos.
Interpretação: Se esta categoria está prejudicada, a intervenção pode ser focada em aumentar o repertório (ex: brainstorming, exposição, treino de habilidades).
Seleção (Qual a função?)
Respostas indicando problema: "Faço isso para não sentir dor", "Para controlar a ansiedade", "Para me proteger". Podem indicar seleção por Evitação Experiencial ou controle (reforço negativo).
Respostas indicando saúde: "Faço isso porque é importante para mim", "Para construir algo". Podem indicar seleção por Valores (reforço positivo).
Interpretação: Se a seleção é baseada em evitar dor, o foco pode ser em aceitação e reorientação para valores.
Retenção (O que prende?)
Respostas indicando problema: "É um hábito automático", "O ambiente não ajuda", "Tento mudar mas volto atrás". Indicam barreiras contextuais ou históricas.
Interpretação: Aqui residem os mantenedores crônicos. Se o paciente tem variação (sabe o que fazer) e seleção (quer mudar), mas falha na retenção, o foco pode ser em hábitos e controle de estímulos (alterar o ambiente, rotina, sono).
Integração com avaliação clínica
Para instrumentos multidimensionais como este, não olhe as linhas isoladamente. Procure laços de retroalimentação:
Exemplo de Padrão: Uma rigidez na Cognição ("Sou fraco") gera uma Seleção no Comportamento ("Evitar desafios") que é Retida pelo Sociocultural ("Família superprotetora"). Isso forma a rede do problema.
Cuidados éticos e limitações de aplicação
Uso Isolado: Deve ser sempre complementado pela observação clínica direta. O que o paciente diz que faz pode diferir do que ele realmente faz na sessão.
Sugestões para análise clínica
Identifique a dimensão dominante: O problema começa no corpo (Biofisiológico/Sono) e afeta a mente, ou começa na Cognição (Ruminação) e afeta o corpo? Intervenha onde o "nó" é mais forte.
Dimensões de maior prejuízo: Geralmente, prejuízos nas dimensões Biofisiológica e Sociocultural podem atuar como "teto de vidro", impedindo o progresso nas dimensões psicológicas (Cognição/Afeto)
Você está prestes a realizar uma Investigação Baseada em Processos!
Não leia as perguntas como um roteiro burocrático. Seu objetivo entender a função dos comportamentos do seu paciente.
Se for preciso, adapte a linguagem: use os termos que o paciente usa ou está habituado (ex: se ele diz 'nó no peito' em vez de 'angústia', use 'nó no peito').
Foco nos 3 Pilares:
Ao perguntar sobre Variação, investigue se o paciente está 'preso' ou 'rígido'.
Ao perguntar sobre Seleção, investigue 'para que serve' o comportamento (evitar dor ou buscar vida?).
Ao perguntar sobre Retenção, investigue por que a mudança não dura (hábitos, ambiente, biologia).
Cada dimensão segue o mesmo formato:
Variação (O que aparece / O que não aparece)
Seleção (Função / Para que serve isso na rede)
Retenção (O que mantém / Por que as coisas boas não ficam)
Seja curioso(a): se o paciente der uma resposta curta, explore: "E o que isso faz por você no curto prazo?"
Comece pelas dimensões que parecem mais urgentes na queixa atual, mas tente cobrir todas para ter uma visão sistêmica da rede.
Construída e desenvolvida por Júlio Cézar Gonçalves do Pinho (CRP-12/17614).
**Todos direitos reservados à Júlio Gonçalves Lógica Psicológica LTDA / contato@psicojulio.com
Hayes, S. C., & Hofmann, S. G. (2020). Terapia Cognitivo-Comportamental Baseada em Processos: Ciência e competências clínicas. Artmed.
Hofmann, S. G., Hayes, S. C., & Lorscheid, D. N. (2023). Aprendendo a Terapia Baseada em Processos: Treinamento de Habilidades para Mudança Psicológica na Prática. Artmed.
Hayes, S. C., Hofmann, S. G., & Wilson, D. S. (2020). Clinical psychology is an applied evolutionary science. Clinical Psychology Review, 81, 101892.