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Objetivo clínico
Avaliar a percepção subjetiva do paciente sobre as mudanças em diferentes áreas de sua vida decorrentes do tratamento recebido em serviços de saúde mental. Baseia-se na abordagem de resultados relatados pelo paciente (Patient-Reported Outcomes - PRO) e no modelo de avaliação de estrutura-processo-resultado proposto por Donabedian (1966/2005).
O instrumento busca identificar, sob a ótica do próprio paciente:
Melhora, estabilidade ou piora percebida em dimensões físicas, psicológicas e sociais;
Áreas de maior benefício percebido do tratamento;
Campos de manutenção ou retrocesso subjetivo ao longo do acompanhamento clínico.
Tipo de aplicação
A versão brasileira da EMP é aplicada por entrevista estruturada, e não é de autorrelato.
Durante a adaptação transcultural, o formato original de autopreenchimento foi substituído por aplicação oral para garantir:
Acessibilidade a pacientes com baixa escolaridade ou dificuldades cognitivas;
Padronização da compreensão dos itens e das categorias de resposta.
População-alvo e contexto de uso
População: Pacientes psiquiátricos adultos em acompanhamento contínuo (ex.: CAPS, ambulatórios, serviços substitutivos).
Condições de uso: Contextos clínicos, institucionais e de pesquisa em saúde mental.
Finalidade principal: Monitoramento de resultados percebidos, triagem qualitativa de evolução, e avaliação da efetividade subjetiva do tratamento.
Limitações e cuidados de uso
A EMP não é uma medida de autorrelato autônomo nem substitui a avaliação clínica.
Deve ser utilizada complementarmente a entrevistas diagnósticas, observações e outros instrumentos padronizados.
Pode apresentar vieses de desejabilidade social, especialmente em pacientes com vínculo prolongado com o serviço.
Estrutura do instrumento:
Total de itens: 19 (sendo 1 global e 18 específicos).
Formato de resposta: Escala Likert de 3 pontos (1 = pior do que antes; 2 = sem mudança; 3 = melhor do que antes).
Aplicação: Entrevista estruturada conduzida por profissional ou entrevistador treinado, com leitura dos itens e registro das respostas.
Dimensões identificadas (Análise Fatorial - Bandeira et al., 2011):
Ocupação e Saúde Física (8 itens - 16, 8, 17, 18, 15, 11, 7, 10)
Avalia mudanças percebidas em energia, disposição, interesse em atividades produtivas, saúde física e capacidade funcional cotidiana.
Aspectos Psicológicos e Sono (6 itens - 4, 2, 1, 5, 6, 9)
Avalia mudanças em humor, confiança, interesse pela vida, enfrentamento e qualidade do sono.
Relacionamentos e Estabilidade Emocional (4 itens - 13, 3, 14, 12)
Avalia percepção de mudanças nos vínculos familiares e sociais, além da estabilidade emocional nas interações interpessoais.
Pontuação e interpretação dos resultados:
O escore total pode ser obtido pela soma ou média das respostas aos 19 itens, resultando em valores entre 1 e 3.
Interpretação dos escores médios:
1,00–1,49 = percepção de piora
1,50–2,49 = ausência de mudança percebida
2,50–3,00 = percepção de melhora
Cutoffs clínicos: O estudo não apresenta pontos de corte validados. Mas de acordo com a média dos escores obtidos, pode-se considerar que valores mais próximos de 3 indicam percepção de melhora, valores próximos de 2 refletem estabilidade ou ausência de mudança, e valores próximos de 1 sugerem piora percebida.
Importante:
O estudo de validação da EMP (Bandeira et al., 2011) não definiu pontos de corte clínicos, faixas de classificação ou normas populacionais. Assim, a interpretação dos escores deve ser feita de forma qualitativa e comparativa, analisando os padrões de resposta entre os fatores e a evolução individual ao longo do tempo.
Mudança clínica e sensibilidade:
O estudo original apresentou alta estabilidade temporal (rICC = 0,93), demonstrando boa reprodutibilidade dos resultados.
A reaplicação periódica (ex.: a cada 3-6 meses) pode ser útil para monitorar a percepção subjetiva de progresso do paciente, especialmente em contextos de acompanhamento terapêutico contínuo.
Cuidados éticos e limitações:
A EMP deve ser utilizada como medida complementar, e nunca isoladamente, no processo de avaliação psicológica.
Os resultados devem ser interpretados à luz da entrevista clínica, observações comportamentais e outras medidas padronizadas.
Podem ocorrer vieses de desejabilidade social, especialmente em contextos de vínculo prolongado com o serviço.
Recomenda-se garantir privacidade e sigilo durante a aplicação, e esclarecer que não há respostas “certas” ou “erradas”.
Sugestões para análise clínica:
Fator 1 (Ocupação e saúde física): analisar em conjunto com indicadores de funcionalidade e engajamento em atividades de vida diária.
Fator 2 (Aspectos psicológicos e sono): integrar com medidas de sintomas depressivos, ansiosos e de qualidade do sono.
Fator 3 (Relacionamentos e estabilidade emocional): cruzar com dados de suporte social, ajustamento interpessoal e satisfação com vínculos.
Monitoramento terapêutico: observar a evolução intraindividual entre avaliações sucessivas para identificar áreas percebidas de melhora, estagnação ou regressão.
Contexto da aplicação
A aplicação deve ocorrer em ambiente tranquilo, privado e livre de interrupções, normalmente durante o atendimento ou no contexto de avaliação periódica.
Deve ser conduzida por um profissional entrevistados (psicólogo, residente, técnico de nível superior ou pesquisador em saúde mental).
Forma de apresentação ao participante
O entrevistador deve explicar de forma simples e acolhedora:
o objetivo da entrevista;
o caráter confidencial da participação;
e o fato de que não há respostas certas ou erradas.
Instrução-base (extraída e adaptada dos artigos de referência):
“Gostaria de conversar com você sobre como tem percebido sua vida desde que começou o tratamento aqui no serviço. Vou fazer algumas perguntas sobre diferentes aspectos da sua vida - como seu humor, sono, energia, convivência com as pessoas, entre outros. Para cada um deles, quero que você me diga se acha que melhorou, ficou igual ou piorou desde que começou o tratamento aqui. As respostas não vão interferir no seu tratamento. O importante é que você responda o que realmente sente, com sinceridade.”
Estrutura da aplicação
O entrevistador lê cada item lentamente e com clareza, certificando-se de que o paciente compreendeu o conteúdo.
Na versão adaptada brasileira, foi inserida uma pergunta aberta e opcional para dar início, sendo: "Você acha que o tratamento que você está recebendo aqui o ajudou a se sentir melhor? Se sim, como? Se não, por que?"
Essa questão complementa a compreensão qualitativa e pode ser utilizadas em contextos de formulação de caso ou monitoramento longitudinal.
Para cada item que for apresentado, o entrevistador poderá dizer: "Desde que você iniciou o tratamento aqui,......está(ão)........"
Se houver dúvida sobre o significado, o entrevistador pode explicar usando exemplos:
No item “energia”, pode-se dizer “energia quer dizer disposição para fazer as coisas”
O paciente escolhe uma das três respostas:
“Melhor do que antes”
“Sem mudança”
“Pior do que antes”
O entrevistador anota a resposta correspondente (1, 2 ou 3).
Técnica de sondagem (Probe Technique)
Durante o estudo piloto, os autores utilizaram a técnica de sondagem (Probe Technique - Guillemin et al., 1993) para garantir que o respondente realmente entenda cada item. O entrevistador pode, após cada resposta, pedir uma explicação curta:
“Você pode me explicar um pouco o que quis dizer com isso?”
Essa sondagem serve apenas para verificar se a pessoa compreendeu o item corretamente (não é para corrigir a resposta).
Considerações éticas
Garantir sigilo das respostas.
Evitar aplicar a escala na presença de familiares ou profissionais do serviço para minimizar viés de desejabilidade social.
Reforçar que o objetivo é compreender a percepção pessoal do paciente sobre as mudanças em sua vida, não avaliar o serviço.
Duração e ritmo
Aplicação média: 15 a 20 minutos.
Respeitar pausas naturais e eventuais dificuldades de atenção.
Pode ser dividida em duas partes em casos de pacientes com fadiga cognitiva.
Mercier, L., Landry, M., Corbiere, M., & Perreault, M. (2004). Measuring client’s perception as outcome measurement. In A. R. Roberts & K. R. Yeager. Evidence-based practice manual: Research and outcome measures in health and human services. Oxford, UK: Oxford University Press.
Bandeira, M., Calzavara, M. G. P., Costa, C. S., & Cesari, L. (2009). Avaliação de serviços de saúde mental: adaptação transcultural de uma medida da percepção dos usuários sobre os resultados do tratamento. Jornal Brasileiro de Psiquiatria, 58(2), 107–114. https://doi.org/10.1590/S0047-20852009000200007
Bandeira, M., Andrade, M. C. R., Costa, C. S., & Silva, M. A. (2011). Percepção dos pacientes sobre o tratamento em serviços de saúde mental: validação da Escala de Mudança Percebida (EMP). Psicologia: Reflexão e Crítica, 24(2), 236–244. https://doi.org/10.1590/S0102-79722011000200004