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A Escala Fatorial da Satisfação em Relacionamento de Casal (EFS-RC) mensura a satisfação com aspectos específicos do relacionamento de casal, entendida como avaliação cognitiva positiva dos benefícios da relação amorosa/sexual para o indivíduo. Satisfação é tomada como componente da qualidade do relacionamento, dentro do modelo de Fletcher, Simpson e Thomas (2000), em que a qualidade do relacionamento é um fator de ordem superior composto por dimensões como satisfação, confiança, intimidade, paixão, companheirismo e amor.
População-alvo:
- Pessoas em qualquer relacionamento amoroso/sexual com algum grau de estabilidade (namoros, noivados, casamentos, uniões informais).
- O primeiro estudo foi realizado com pessoas entre 13 e 77 anos (Wachelke et al., 2004)
- O segundo estudo foi realizado com pessoas entre 17 a 35 anos (Wachelke et al., 2007)
Tempo médio de aplicação:
3 a 5 minutos
Usos recomendados:
Obter um panorama inicial de como cada parceiro percebe atração física/sexualidade (SAFS) e afinidade de interesses/comportamentos (SAIC);
Comparar respostas entre parceiros já no início da avaliação;
Identificar discrepâncias importantes (p. ex., um parceiro pontua SAFS alto e o outro muito baixo);
Direcionar perguntas na entrevista clínica em demandas de relacionamentos de casal.
1. Estrutura do instrumento:
Número total de itens: 8 itens
Tipo de resposta: Escala Likert de concordância de 5 pontos (1=“discordo fortemente” e 5= “concordo fortemente”)
Organização: Duas subescalas: 1)Satisfação com atração física e sexualidade e 2) Satisfação com afinidades de interesses e comportamentos.
2. Descrição dos fatores:
SAFS – Satisfação com Atração Física e Sexualidade:
- Aparência física do(a) parceiro(a) (bonito, fisicamente atraente);
- Prazer nas situações de contato físico;
- Desejo de envolvimento físico/sexual.
SAIC – Satisfação com Afinidades de Interesses e Comportamentos:
- Ideias e interesses em comum;
- Participação em atividades semelhantes;
- Compatibilidade de expectativas quanto ao futuro profissional.
3. Pontuação e faixas de interpretação (cutoffs):
- Os estudos não apresentam pontos de corte validados para uso clínico (não há classificação formal em “baixo”, “médio”, “alto”).
- O estudo de construção da escala (Wachelke et al., 2004) encontrou as seguintes estatísticas descritivas:
SAFS: Média = 4,59; Desvio Padrão = 0,62.
SAIC: Média = 3,79; Desvio Padrão = 0,83.
SAFS – Satisfação com Atração Física e Sexualidade :
Escores altos: elevada satisfação com a dimensão física/sexual da relação (atração, desejo e prazer no contato).
Escores baixos: insatisfação ou ambivalência quanto à atratividade física do parceiro, frequência/qualidade do contato físico e disponibilidade para intimidade sexual.
SAIC – Satisfação com Afinidades de Interesses e Comportamentos:
Escores altos: forte percepção de compatibilidade de interesses, estilo de vida, projetos e comportamentos; maior sensação de “encaixe” entre os parceiros.
Escores baixos: percepção de diferenças de interesses, valores práticos, atividades e projetos, com possível aumento de conflitos e dificuldades de ajuste.
4. Mudança clínica e sensibilidade:
Os estudos não apresentaram dados de:
Sensibilidade à mudança;
RCI (Reliable Change Index);
MCID (Minimal Clinically Important Difference).
Portanto, toda interpretação de mudança ao longo do tempo deve ser clínica e descritiva, não estatisticamente ancorada.
5. Cuidados éticos e limitações de aplicação:
- Cobertura parcial do construto: a EFS-RC mede apenas dois aspectos da satisfação; não contempla intimidade, comunicação, resolução de conflitos, apoio emocional, etc.
- Confiabilidade moderada de SAIC, especialmente no estudo original (α = 0,61), indicando necessidade de aprimoramento dos itens.
- Amostras restritas ao Sul do Brasil (Florianópolis, Porto Alegre, UFSC), o que limita a generalização para outros contextos socioculturais.
- Não utilizar a escala isoladamente para decisões críticas (manutenção ou rompimento da relação, guarda de filhos, etc.).
- Sempre integrar os resultados com: E
ntrevista clínica individual e de casal,
história do relacionamento,
avaliação de violência, abuso, coerção ou risco,
indicadores de saúde mental individual.
- Pontuações baixas em SAFS ou SAIC podem refletir, por exemplo, contextos de violência, desrespeito, traição, depressão ou outras variáveis não diretamente captadas pelos itens.
6. Sugestões para análise clínica:
SAFS alto / SAIC baixo
Quadro típico: Forte atração física/sexual, mas baixa compatibilidade de interesses, projetos e comportamentos.
Hipóteses clínicas:
Relações muito centradas em sexualidade, com conflitos na convivência cotidiana.
Intervenções possíveis:
trabalhar negociação, projetos compartilhados, rotinas e papéis;
explorar expectativas de futuro e valores.
SAFS baixo / SAIC alto
Quadro típico: boa parceria, projetos em sintonia, mas queixas sobre desejo, atração física, contato sexual.
Hipóteses:
Impacto de eventos de vida (doença, filhos, estresse),
Questões relacionadas à imagem corporal, disfunções sexuais, crenças sobre sexualidade.
Intervenções:
Psicoeducação em sexualidade,
Comunicação íntima,
Manejo de vergonha/culpa.
SAFS e SAIC baixos
Indica insatisfação ampla com o relacionamento.
Deve acender alerta para:
Risco de rompimento,
Sofrimento emocional significativo,
Possível presença de dinâmicas de desvalorização mútua ou violência.
Intervenções:
Avaliação aprofundada de risco,
Exploração do contrato do casal,
Consideração de intervenções focadas em segurança, limites, eventualmente decisões de separação.
SAFS e SAIC altos
Perfil de alta satisfação específica, o que é coerente com maiores níveis de satisfação global.
Pode ser usado como indicador de recursos do casal, ajudando a focar a clínica em outras áreas que não são captadas pela escala (ex.: conflitos com família de origem, problemas financeiros).
Você encontrará a seguir algumas afirmações sobre seu relacionamento. Por favor, indique o quanto você concorda ou discorda de cada uma delas. Responda pensando no seu relacionamento atual. Não existem respostas certas ou erradas.
Wachelke, J. F. R., Andrade, A. L. D., Cruz, R. M., Faggiani, R. B., & Natividade, J. C. (2004). Medida da satisfação em relacionamento de casal. Psico-USF, 9, 11-18. https://doi.org/10.1590/S1413-82712004000100003
Wachelke, J. F. R., Andrade, A. L. D., Souza, A. M., & Cruz, R. M. (2007). Estudo complementar da validade fatorial da Escala Fatorial de Satisfação em Relacionamento e predição de satisfação global com a relação. Psico-USF, 12, 221-225. https://doi.org/10.1590/S1413-82712007000200010
Fletcher, G. J. O., Simpson, J. A. & Thomas. G. (2000). The measurement of perceived relationship quality components: A confirmatory factor analytic approach. Personality and Social Psychology Bulletin, 26(3) 340-354.