Carregando instrumento...
O Inventário de Crenças Centrais Negativas (Negative Core Beliefs Inventory - NCBI) é um inventário de autorrelato desenvolvido para avaliar crenças centrais negativas sobre si e sobre os outros, conforme a teoria cognitiva de Aaron T. Beck. O instrumento parte da ideia de que crenças centrais são compreensões fundamentais, rígidas e duradouras, ativadas sobretudo em situações de estresse, com papel relevante na vulnerabilidade para sofrimento emocional, especialmente ansiedade e depressão.
Tempo médio de aplicação
7 minutos
População-alvo
Adultos da população geral
Usos recomendados
Triagem clínica cognitiva, apoio à formulação de caso, investigação transdiagnóstica de vulnerabilidades cognitivas, monitoramento psicoterapêutico e pesquisa. O instrumento parece especialmente útil quando o clínico deseja discriminar crenças de desvalor/desamor/desamparo de crenças de desconfiança e ameaça interpessoal. O uso para apoio diagnóstico deve ser sempre indireto e complementar, nunca como instrumento isolado.
1. Estrutura do instrumento:
Número total de itens: 32 itens
Tipo de resposta: escala Likert de 4 pontos (1 = “Não me descreve bem” e 4 = “Descreve-me muito bem”)
Organização: 2 fatores de segunda ordem (Crenças centrais negativas sobre os outros e Crenças centrais negativas sobre si mesmo) e 4 fatores de primeira ordem (Desamparo/Inferioridade, Desamparo/Vulnerabilidade, Desamor e Desvalor)
2. Descrição das subescalas, dimensões ou fatores:
Fatores de segunda ordem:
Crenças centrais negativas sobre si: Correspondem ao conjunto de interpretações mais profundas, rígidas e generalizadas que a pessoa faz sobre o próprio valor, capacidade, amabilidade e condição de enfrentamento. Na teoria cognitiva de Beck, elas não são pensamentos passageiros, mas sim “verdades pessoais” muito arraigadas, que tendem a organizar a leitura que o indivíduo faz de si mesmo, das relações e dos acontecimentos.
Crenças centrais negativas sobre os outros: Avalia expectativas de que as outras pessoas sejam hostis, abusivas, manipuladoras, críticas, traiçoeiras ou exploradoras. Escores altos sugerem desconfiança interpessoal, hipervigilância a ataque/rejeição e tendência a interpretar relações sob chave de ameaça. Escores baixos sugerem menor centralidade de esquemas de desconfiança.
Fatores de primeira ordem:
Desamparo/Inferioridade: Mede sentimentos de incompetência, inferioridade e comparação desfavorável com os outros. Escores altos sugerem autoavaliação de baixa competência, tendência a se perceber aquém dos pares e maior sensibilidade a situações de comparação e desempenho. Escores baixos sugerem menor presença de crenças de incapacidade/inferioridade.
Desamparo/Vulnerabilidade: Avalia percepção de fragilidade, desproteção, insegurança e dificuldade de enfrentar adversidades ou situações novas sem apoio. Escores altos sugerem maior dependência percebida de proteção externa e vivência subjetiva de fragilidade. Escores baixos sugerem maior senso de enfrentamento.
Desamor: Mede crenças de não ser amável, interessante ou digno de afeto, incluindo expectativa de rejeição e dificuldade de receber amor ou amizade. Escores altos sugerem hipersensibilidade a rejeição, necessidade de validação e forte vulnerabilidade em contextos interpessoais íntimos. Escores baixos sugerem menor centralidade de crenças de rejeição/indesejabilidade.
Desvalor: Avalia crenças de fracasso, pouco valor pessoal, insignificância, prejuízo aos outros e autodesqualificação global. Escores altos sugerem autoimagem globalmente negativa, com maior proximidade clínica de sintomas depressivos e desesperança. Escores baixos sugerem menor presença de autodesvalor central.
3. Pontuação e faixas de interpretação (cutoffs):
Os estudos não apresentam pontos de corte validados nos próprios artigos.
Há materiais suplementares disponibilizados pelos autores que sugerem os seguintes pontos de corte:
Crenças centrais sobre os outros: baixo até 1,82; médio >1,82 até 2,45; alto >2,45.
Crenças centrais sobre si: baixo até 1,62; médio >1,62 até 2,29; alto >2,29.
Desamparo/Inferioridade: baixo até 2,00; médio >2,00 até 2,75; alto >2,75.
Desamparo/Vulnerabilidade: baixo até 2,00; médio >2,00 até 2,80; alto >2,80.
Desamor: baixo até 1,33; médio >1,33 até 2,17; alto >2,17.
Desvalor: baixo até 1,17; médio >1,17 até 1,67; alto >1,67.
4. Mudança clínica e sensibilidade:
Há evidência de estabilidade temporal de curto prazo, com teste-reteste adequado tanto em adultos quanto em adolescentes. Isso sugere que o instrumento pode ser reutilizado em monitoramento longitudinal, especialmente quando o foco terapêutico envolve reestruturação de crenças centrais. Ainda assim, os estudos não apresentam RCI, MCID ou pontos de mudança clinicamente significativa.
5. Cuidados éticos e limitações de aplicação:
O ICCN não deve ser utilizado isoladamente para diagnóstico ou tomada de decisão clínica conclusiva. Os próprios estudos têm limitações importantes: amostras de conveniência, predominância de autorrelato, ausência de amostras clínicas diagnósticas no estudo original e tamanho amostral relativamente pequeno na validação adolescente.
6. Sugestões para análise clínica:
O ICCN pode ser combinado de forma útil com medidas de sintomas ansiosos/depressivos, esquemas iniciais desadaptativos, apego e funcionamento interpessoal. Com base nos próprios artigos, uma combinação particularmente coerente seria:
NCBI + medida de ansiedade/depressão para distinguir intensidade sintomática de vulnerabilidade cognitiva;
NCBI + medida de esquemas para ampliar a cobertura do sistema de crenças;
NCBI + indicadores de apego quando houver hipótese de rejeição, dependência afetiva ou desconfiança interpessoal;
NCBI + entrevista clínica focada em eventos formativos, especialmente bullying, crítica parental, frieza emocional e contextos de humilhação.
Para formulação de caso, um raciocínio clínico útil é:
Desamor alto → prioridade para temas de rejeição, vínculo e validação;
Desvalor alto → maior risco de prejuízo funcional depressivo;
Desamparo/Vulnerabilidade alto → investigar dependência, insegurança e sensação de incapacidade para enfrentar desafios;
Desamparo/Inferioridade alto → foco em comparação social, desempenho e autoeficácia.
Por favor, leia com atenção as afirmativas a seguir e indique o quão bem elas te descrevem escolhendo uma das 4 opções de resposta.
Osmo, F., Wenzel, A., de Oliveira, I., & Menezes, I. (2018). The negative core beliefs inventory (NCBI): Development and Psychometric properties. Journal of Cognitive Psychotherapy, 32(1), 1-18. http:// dx. doi. org/ 10. 1891/ 0889- 8391. 32.1
Osmo, F., Wenzel, A., de Oliveira, I., & Menezes, I. (2018). The negative core beliefs inventory (NCBI): Development and Psychometric properties. Journal of Cognitive Psychotherapy, 32(1), 1-18. http:// dx. doi. org/ 10. 1891/ 0889- 8391. 32.1
Autorização para implementação do Inventário de Crenças Centrais Negativas obtida de Flávio Osmo.