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O Questionário de Aceitação e Ação da imagem corporal (Body Image-Acceptance and Action Questionnaire (BI-AAQ) é um instrumento desenvolvido para avaliar flexibilidade psicológica diante de pensamentos, sentimentos e sensações relacionados ao corpo e à imagem corporal.
A inflexibilidade psicológica da imagem corporal (pontuações mais baixas) refere-se a um padrão de resposta rígida caracterizado por: (a) tentativas persistentes de evitar ou controlar experiências internas desagradáveis relacionadas ao corpo (peso, forma corporal, sensações de "sentir-se gordo"); (b) fusão cognitiva com pensamentos autodepreciativos sobre a aparência; (c) estreitamento comportamental, com prejuízos na capacidade de viver conforme valores importantes em função da preocupação com a imagem corporal.
Por outro lado, a flexibilidade psicológica da imagem corporal (pontuações mais altas após reversão) indica a habilidade de estar presente com experiências corporais desconfortáveis, aceitá-las sem lutar contra elas, e agir de forma consistente com valores pessoais mesmo diante de insatisfação corporal.
O BI-AAQ fundamenta-se teoricamente no modelo de Inflexibilidade Psicológica proposto pela ACT, que postula que o sofrimento psicológico não decorre primariamente da presença de conteúdos internos negativos (ex.: insatisfação corporal), mas sim da relação inflexível que o indivíduo estabelece com esses conteúdos. Estudos empíricos demonstram que a inflexibilidade da imagem corporal atua como mecanismo de vulnerabilidade e manutenção de transtornos alimentares, compulsão alimentar, busca patológica pela magreza e autocrítica.
Tempo médio de aplicação
3 a 5 minutos
População-alvo
Mulheres adultas (> 18 anos)
Usos recomendados
Avaliação de processos transdiagnósticos envolvidos em comportamentos alimentares alvos;
Triagem de risco para transtornos alimentares;
Formulação de caso em TCC/ACT;
Monitoramento de mudança clínica em intervenções voltadas à imagem corporal.
1. Estrutura do instrumento:
Número total de itens: 11 itens na versão brasileira validada (versão original possui 12 itens).
Tipo de resposta: Escala Likert de 1 a 7 (1 = “Nunca verdadeira” … 7 = “Sempre verdadeira”).
Organização: Unidimensional (Flexibilidade/inflexibilidade diante de experiências relacionadas ao corpo)
2. Descrição do fator:
- Flexibilidade Psicológica da Imagem Corporal
O que mede:
Grau de evitação experiencial, fusão cognitiva e rigidez comportamental frente a sensações, emoções e pensamentos sobre o corpo.
Indica vulnerabilidade a comer emocional, vergonha corporal e restrição rígida.
3. Pontuação e faixas de interpretação (cutoffs):
Soma total dos itens
Brasil (11 itens): mínimo 11 - máximo 77
Interpretação:
Escore alto: maior inflexibilidade → mais esquiva de experiências corporais → risco aumentado para comportamentos alimentares disfuncionais. Isso pode indicar que o indivíduo apresenta alta fusão com pensamentos sobre o corpo, elevada evitação de experiências corporais desconfortáveis e significativa interferência dessas experiências em ações orientadas por valores. Escores elevados estão associados a maior risco de compulsão alimentar, busca patológica pela magreza, autocrítica, menor autocompaixão e sintomatologia de transtornos alimentares.
Escore baixo: maior aceitação de experiências corporais → maior flexibilidade e menor impacto da avaliação corporal negativa. Isso pode indicar maior capacidade de experimentar pensamentos e sentimentos negativos sobre o corpo sem agir defensivamente ou evitar situações importantes. Flexibilidade está associada a menor sintomatologia alimentar, melhor qualidade de vida, maior bem-estar psicológico e menor dissatisfação corporal.
OBS: O estudo brasileiro NÃO apresenta pontos de corte validados empiricamente para classificação de risco ou severidade clínica. Portanto, não é possível categorizar indivíduos em faixas de risco (baixo, moderado, alto) com base em evidências brasileiras.
Os dados normativos brasileiros fornecem as seguintes médias:
População geral feminina: M = 33,08 (DP = 16,60)
Grupo clínico (sobrepeso/obesidade): M = 45,98 (DP = 17,48)
Na ausência de pontos de corte validados localmente, sugere-se uma interpretação dimensional e contextualizada, considerando:
Comparação com médias normativas:
Escores abaixo de 33 (média da população geral): sugerem níveis de inflexibilidade abaixo da média populacional, indicando relativa flexibilidade psicológica.
Escores entre 33 e 46: podem indicar níveis intermediários de inflexibilidade, próximos à média populacional ou ao limite inferior do grupo clínico.
Escores acima de 46 (média do grupo clínico): sugerem níveis elevados de inflexibilidade, comparáveis aos observados em amostras clínicas com sobrepeso/obesidade.
Análise qualitativa de itens: Identificar quais domínios específicos (preocupação excessiva, evitação, interferência em valores) apresentam maior pontuação pode orientar formulação de caso e planejamento de intervenções específicas.
4. Mudança clínica e sensibilidade:
Embora o estudo brasileiro não tenha testado especificamente a reaplicação, a literatura internacional sugere que o BI-AAQ pode ser utilizado para monitoramento longitudinal, especialmente em:
Intervenções baseadas em ACT, mindfulness e autocompaixão para transtornos alimentares e imagem corporal.
Programas de emagrecimento e controle de peso, onde a flexibilidade psicológica pode ser um preditor de adesão e sucesso terapêutico.
Frequência de reaplicação: Não há consenso na literatura. Estudos clínicos frequentemente avaliam pré-tratamento, pós-tratamento e seguimento (1, 3, 6 ou 12 meses). Em contextos de monitoramento sessão a sessão, a brevidade do instrumento (11 itens) permite aplicação semanal ou quinzenal sem sobrecarga ao paciente.
Um estudo naturalístico com 88 mulheres em tratamento residencial para transtornos alimentares encontrou que mudanças nos escores do BI-AAQ do pré ao pós-tratamento foram significativamente associadas a reduções na sintomatologia alimentar (Lee et al., 2017);
Meta-análise de intervenções psicológicas (k = 62 estudos) demonstrou que tratamentos focados em flexibilidade psicológica da imagem corporal produzem melhoras significativas nos escores do BI-AAQ, com tamanho de efeito de d = 0,42 em ensaios clínicos randomizados (Linardon et al., 2021);
5. Cuidados éticos e limitações de aplicação:
Não deve ser usado isoladamente para diagnóstico.
Pode ser influenciado por contexto cultural e por variáveis como IMC e insatisfação corporal.
Recomendado integrar com
entrevista clínica,
instrumentos de flexibilidade psicológica,
medidas de imagem corporal e comportamento alimentar.
6. Sugestões para análise clínica:
Quando o escore é alto (inflexibilidade):
Hipóteses clínicas possíveis:
Evitação de sensações corporais → aumento do comer emocional
Fusão com pensamentos autocríticos (“sou gorda”, “não posso falhar na dieta”)
Restrição rígida → risco de ciclos restrição-compulsão
Intervenções indicadas:
ACT: desfusão cognitiva, aceitação, trabalho com valores
TCC: reestruturação de crenças sobre corpo e peso
Treino de regulação emocional
Exposure-based work: exposição interoceptiva e corporal
Maior capacidade de ação orientada a valores mesmo em presença de desconforto corporal
Indica fator protetivo contra recaída em transtornos alimentares
Pode ser utilizado como indicador de progresso em psicoterapia
A seguir, você irá encontrar uma lista de afirmações. Por favor, indique a frequência em que cada situação acontece, selecionando a opção que mais representa a sua resposta.
Sandoz, E. K., Wilson, K. G., Merwin, R. M., & Kellum, K. K. (2013). Assessment of body image flexibility: the body image-acceptance and action questionnaire. Journal of Contextual Behavioral Science, 2(1-2), 39-48. https://doi.org/10.1016/j.jcbs.2013.03.002
Lucena-Santos, P., Carvalho, S. A., da Silva Oliveira, M., & Pinto-Gouveia, J. (2017). Body-Image Acceptance and Action Questionnaire: Its deleterious influence on binge eating and psychometric validation. International journal of clinical and health psychology, 17(2), 151-160. https://doi.org/10.1016/j.ijchp.2017.03.001
Lee, E. B., Smith, B. M., Twohig, M. P., Lensegrav-Benson, T., & Quakenbush-Roberts, B. (2017). Assessment of the body image-acceptance and action questionnaire in a female residential eating disorder treatment facility. Journal of Contextual Behavioral Science, 6(1), 21-28.
Linardon, J., Anderson, C., Messer, M., Rodgers, R. F., & Fuller-Tyszkiewicz, M. (2021). Body image flexibility and its correlates: A meta-analysis. Body image, 37, 188-203.
A implementação do instrumento foi realizada mediante aprovação da Dra. Margareth Oliveira, coordenadora do Grupo de Avaliação e Acompanhamento Psicológico em Contextos Clínicos (GAAPCC), responsável pelos estudos de validação. Informações institucionais adicionais podem ser consultadas no site oficial do grupo (GAAPCC, https://www.gaapcc.com/).