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Objetivo Clínico
O Questionário de Processos de Mudança (EMP), denominado EMP na versão brasileira, avalia com que frequência uma pessoa utiliza pensamentos, emoções e ações para modificar comportamentos problemáticos, especialmente relacionados ao uso de drogas ilícitas. Baseia-se no Modelo Transteórico de Mudança (MTT), que descreve a mudança como um processo com estágios motivacionais. O EMP foi desenvolvido para medir 10 processos de mudança, organizados em dois domínios: processos experienciais/cognitivos (mais comuns em estágios iniciais) e processos comportamentais (predominantes em estágios avançados). Seu uso é indicado em contextos clínicos e de pesquisa em dependência química, auxiliando na compreensão de estratégias utilizadas e no planejamento de intervenções.
Tempo médio de aplicação
O EPM é um autorrelato de aplicação rápida (5-10 min)
População-alvo
Adolescentes e adultos usuários de drogas ilícitas, especialmente em tratamento.
Usos recomendados
Triagem e psicodiagnóstico
Avaliação transdiagnóstica de mecanismos de mudança
Monitoramento de progresso terapêutico
Planejamento de intervenção personalizada
Pesquisa clínica em dependência química
Em reaplicações periódicas (a cada 2-4 semanas), permite acompanhar evolução e orientar foco terapêutico. Pacientes com maior uso de processos comportamentais tendem a melhor adesão e menor recaída.
1. Estrutura do Instrumento
20 itens, 10 processos (2 itens cada), escala Likert 1–5.
A estrutura hierárquica compreende:
Primeiro nível: 10 processos de mudança específicos
Segundo nível: 2 fatores superordenados (processos cognitivos/experienciais e processos comportamentais)
Terceiro nível: Pontuação total que sintetiza o envolvimento global com estratégias de mudança
Fator 1 - Processos Cognitivos
Estes processos refletem atividades mentais, emocionais e reflexivas predominantes nos estágios iniciais de mudança (pré-contemplação, contemplação, preparação). São cinco os processos cognitivos:
Ampliação da consciência (itens 5 e 9): Mede o aumento sistemático de informações sobre si mesmo e sobre o comportamento-problema. Inclui busca ativa de conhecimento sobre os efeitos das drogas, autoconhecimento dos padrões de uso e conscientização dos problemas relacionados.
Alívio emocional (itens 3 e 12): Avalia a experiência de emoções relacionadas ao comportamento-problema (frustração, tristeza, medo) e respostas emocionais a discussões sobre mudança. Inclui catarse emocional e expressão de sentimentos sobre o problema e soluções possíveis.
Reavaliação circundante (itens 4 e 14): Mede a avaliação do impacto do comportamento-problema nas relações pessoais, familiares, profissionais e sociais. Inclui consideração de como o uso de drogas afeta o ambiente social e circunstâncias de vida.
Deliberação social (itens 7 e 20): Mede a consideração de normas sociais e influência de outras pessoas na possibilidade de mudança. Inclui esperança em relação ao que é socialmente possível e consideração de alternativas sugeridas por outros.
Autorreavaliação (itens 8 e 15): Avalia a capacidade de reflexão integrada sobre o self atual (com o comportamento-problema) versus o self futuro idealizado (sem o comportamento-problema). Inclui análise de valores pessoais e congruência comportamental com esses valores.
Fator 2 - Processos Comportamentais
Estes processos refletem ações concretas, comportamentos e estratégias práticas predominantes nos estágios finais de mudança (ação e manutenção). São cinco os processos comportamentais:
Auto-deliberação (itens 13 e 19): Mede o processo de tomada de decisão firme e compromisso voluntário com a mudança. Inclui definição consciente de objetivos de mudança, estabelecimento de metas específicas e reafirmação regular do compromisso com a abstinência.
Controle de estímulos (itens 10 e 16): Mede modificações ambientais deliberadas para remover ou evitar gatilhos que levam ao uso de drogas. Inclui alteração de rotina, mudança de locais de risco, eliminação de pistas associadas ao uso.
Contracondicionamento (itens 6 e 17): Mede o desenvolvimento e prática de respostas alternativas aos estímulos condicionados associados ao uso de drogas. Inclui substituição de comportamentos problemáticos por comportamentos incompatíveis (exercício físico, práticas relaxantes, hobbies).
Gerenciamento de reforço (itens 1 e 18): Mede a capacidade de identificar e manejar estímulos reforçadores (positivos e negativos) relacionados ao novo comportamento e à abstinência. Inclui auto-reforço por comportamentos apropriados, busca de reforço externo (elogios, reconhecimento) e redução de reforços associados ao uso anterior.
Relações de ajuda (itens 2 e 11): Mede a busca ativa e manutenção de relacionamentos de apoio para mudança. Inclui comunicação aberta com amigos, família e profissionais; participação em grupos de apoio; confiança em outros para receber ajuda durante momentos de risco.
2. Pontuação e Faixas de Interpretação
Valores Mínimo e Máximo Possíveis:
Cada item: 1 a 5
Cada processo (2 itens): 2 a 10
Cada fator (5 processos): 10 a 50
Escala total (10 processos): 20 a 100
3. Pontos de Corte e Faixas de Interpretação:
O estudo de validação brasileira não apresenta pontos de corte clinicamente validados para população brasileira. No entanto, com base na estrutura teórica e na distribuição de dados encontrados (n=328 usuários de substâncias ilícitas), é possível sugerir a seguinte abordagem interpretativa:
Sugestão prática (baseada na pontuação bruta total - 20 a 100):
20-40 pontos: Baixa utilização de processos de mudança; sugerindo pouco envolvimento com mudança comportamental. Recomenda-se estratégia motivacional intensiva e psicoeducação.
41-60 pontos: Utilização moderada de processos de mudança; indicativo de algum engajamento. Recomenda-se intervenção multimodal focada em ampliar repertório de estratégias.
61-80 pontos: Boa utilização de processos de mudança; sugerindo comprometimento com a mudança. Recomenda-se manutenção de suporte e consolidação de ganhos.
81-100 pontos: Utilização muito elevada de processos de mudança; indicativo de engajamento máximo. Recomenda-se foco em prevenção de recaída e autonomia do paciente.
Atenção importante: Estes pontos de corte representam uma sugestão prática baseada na estrutura bruta e em diretrizes internacionais adaptadas (não validadas localmente). Devem ser utilizados com cautela e sempre em combinação com avaliação clínica integrada, entrevista estruturada e outros instrumentos de medida.
4. Mudança Clínica e Sensibilidade
O EMP é sensível a mudanças, com aumentos significativos pós-intervenção em processos comportamentais (especialmente autodeliberação, contracondicionamento e relações de ajuda; p < 0,001). Mudanças entre 15-20 pontos podem indicar relevância clínica, principalmente quando acompanhadas por aumento em processos comportamentais.
Recomenda-se reaplicação a cada 2-4 semanas durante tratamento ativo.
5. Cuidados Éticos e Limitações
O EMP não é instrumento diagnóstico e não deve ser usado isoladamente. Deve ser complementado por entrevista clínica, avaliação cognitiva quando necessária e escalas de dependência, motivação, tentação e psicopatologia comórbida. Pontuações baixas não significam falta de motivação; podem refletir estágio inicial ou limitação contextual.
6. Sugestões para Análise Clínica Integrada
6.1 Hipóteses Clínicas Derivadas do Perfil de Processos:
Perfil de pontuação: Altos cognitivos; Baixos comportamentais
Estágio Provável: Contemplação
Hipótese Clínica: Ambivalência reflexiva; reconhecimento do problema mas sem comprometimento com ação
Sugestão de manejo clínico: Ampliar consciência de discrepância entre valores e comportamento; trabalhar balança decisional
Perfil de pontuação: Altos em ambos
Estágio Provável: Ação
Hipótese Clínica: Paciente está utilizando repertório completo de estratégias
Sugestão de manejo clínico: Consolidar e prevenir recaída; trabalhar relações de ajuda
Perfil de pontuação: Baixos em ambos
Estágio Provável: Pré-contemplação ou Negação
Hipótese Clínica: Pouca reflexão ou defesa contra reconhecimento do problema
Sugestão de manejo clínico: Psicoeducação suave; avaliar prontidão; considerar motivação extrínseca (legal, familiar)
Perfil de pontuação: Seletivamente altos em relações de ajuda
Estágio Provável: Possível dependência de suporte externo
Hipótese Clínica: Paciente pode estar delegando responsabilidade de mudança a outros
Sugestão de manejo clínico: Trabalhar autodeliberação; promover autonomia progressiva
Existem cinco respostas possíveis para cada um dos itens do questionário:
1 = Nunca 2 = Raramente 3 = Ocasionalmente 4 = Frequentemente 5 = Repetidamente
Por favor, leia cada afirmação e assinale a opção que melhor indica com qual frequência você se enquadra nessas situações. As situações referen-se a atitudes ou pensamentos que ajudam você a não usar drogas ilegais. Lembre que estas descrições se referem a atitudes ou pensamentos que você pode ter passado durante a semana passada.
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