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A URICA para Hábitos Alimentares (University of Rhode Island Change Assessment) objetiva identificar em que estágio de motivação o indivíduo se encontra em relação à mudança de hábitos alimentares, para apoiar a escolha de estratégias terapêuticas mais adequadas e o monitoramento da motivação ao longo do tratamento. O instrumento é fundamentado no Modelo Transteórico (TTM, Prochaska & DiClemente, 1983), que concebe a mudança comportamental como um processo dinâmico e temporal, dividido em estágios sequenciais (Pré-contemplação; Contemplação; Ação e Manutenção).
Tempo médio de aplicação
5 a 8 minutos
Público-alvo
Mulheres adultas em tratamento para transtornos relacionados a hábitos alimentares.
Usos recomendados
Triagem motivacional em serviços de redução de peso e reeducação alimentar;
Apoio à formulação de caso em obesidade e transtornos relacionados a hábitos alimentares;
Planejamento terapêutico centrado em estágio de mudança (e.g., foco em aumento de consciência em Pré-contemplação, trabalho de ambivalência em Contemplação, suporte comportamental em Ação/Manutenção);
Pesquisa clínica sobre motivação e adesão em intervenções de mudança de hábitos alimentares.
1. Estrutura do instrumento:
Número total de itens: 24 itens
Tipo de resposta: Escala Likert de 5 pontos (1 = “Discordo muito” … 5 = “Concordo plenamente”).
Organização: 4 subescalas (Pré-contemplação; Contemplação; Ação e Manutenção)
2. Descrição das subescalas, dimensões ou fatores:
Pré-contemplação (PC):
- O que mede:
Grau de negação, minimização ou falta de reconhecimento de que os hábitos alimentares constituem um problema.
Baixa intenção de mudança em futuro próximo; percepção de estar no tratamento mais por pressão externa do que por iniciativa própria.
Contemplação (C):
- O que mede:
Reconhecimento de que há um problema com os hábitos alimentares, acompanhado de ambivalência: desejo de mudança coexistindo com dúvidas, medo de perda de benefícios do padrão atual, insegurança sobre capacidade de mudança.
Ação (A):
- O que mede:
Envolvimento em mudanças comportamentais ativas: alteração da dieta, participação regular em tratamento, implementação de estratégias concretas de controle alimentar etc.
Manutenção (M):
- O que mede:
Esforço em manter mudanças já alcançadas, consciência de risco de recaída e uso (ou necessidade) de estratégias de prevenção de recaída.
3. Pontuação e faixas de interpretação (cutoffs):
Escore por subescala: Soma dos 6 itens correspondentes (mínimo 6, máximo 30).
O estudo não apresenta pontos de corte clínicos validados para classificar automaticamente o sujeito em um estágio com base apenas em limiares pré-definidos de escore.
Pré-contemplação (PC):
Escore alto em PC: Paciente pouco engajado em reconhecer problemas alimentares, frequentemente atribui a outros ou a fatores externos a responsabilidade pela situação. Indica baixa prontidão para mudança e necessidade de intervenções focadas em aumentar consciência e trabalhar resistência/negação.
Escore baixo em PC: Indica maior reconhecimento de que há problema, menor uso de defesas de negação/minimização.
Contemplação (C):
Escore alto: Paciente ciente do problema, pensa sobre mudar, busca entender causas, mas ainda não assumiu compromisso firme com ações concretas. É o território clássico da ambivalência, ideal para intervenções de entrevista motivacional e psicoeducação.
Escore baixo: Pode indicar dois perfis:
Sujeito já avançado (ação/manutenção) com pouca ambivalência, ou
Sujeito em pré-contemplação com negação (avaliar combinação com PC, A e M).
Ação (A):
Escore alto: Indica que o paciente já está fazendo mudanças significativas, luta para manter novos comportamentos e costuma se ver como “em tratamento”.
Escore baixo: Sugere ausência de mudanças ativas – o paciente pode estar em PC ou C, a depender da combinação com outras subescalas.
Manutenção (M):
Escore alto: Indica que o paciente já mudou de forma importante seus hábitos alimentares e está em processo de consolidar novas rotinas, ao mesmo tempo em que ainda se preocupa com recaídas (ambivalência ainda presente).
Escore baixo: Sugere manutenção frágil ou inexistente, podendo refletir recaídas recentes ou ausência de mudanças prévias.
4. Mudança clínica e sensibilidade:
Não há dados de:
Sensibilidade à mudança clínica (pré-pós intervenção);
RCI (Reliable Change Index) ou MCID;
fidedignidade teste–reteste;
Portanto, a URICA para hábitos alimentares pode ser usada clinicamente em monitoramento longitudinal como hipótese de trabalho, mas o uso de diferenças de escores para inferir “mudança clinicamente significativa” deve ser feito com muita cautela, preferencialmente combinado com outros indicadores (peso, IMC, relatos clínicos, frequência em sessões, etc.).
5. Cuidados éticos e limitações de aplicação:
- O instrumento foi validado apenas em adultos participantes de programas de redução de peso, predominantemente mulheres; a generalização para homens em maior proporção, adolescentes, idosos e população geral não tratada não está estabelecida.
- O estudo não inclui comparação com diagnósticos de transtornos alimentares formais, nem dados de predição de desfechos clínicos (aderência, perda de peso, recaída).
- Não deve ser utilizado isoladamente para decisões diagnósticas ou de alto impacto (por exemplo, alta hospitalar, aptidão para cirurgia bariátrica).
Deve ser sempre complementado por:
entrevista clínica detalhada,
avaliação de padrão alimentar, peso e IMC,
outros instrumentos específicos (por exemplo, escalas de compulsão alimentar, imagem corporal, sintomas depressivos/ansiosos).
6. Sugestões para análise clínica:
Leitura do perfil de estágios (padrão relativo dos quatro escores):
PC alto, C baixo, A/M baixos: paciente em Pré-contemplação – baixa percepção de problema, provavelmente pouco aderente a prescrições. Intervenções devem focar:
vínculo,
psicoeducação,
exploração de prós e contras,
manejo da resistência (entrevista motivacional).
PC baixo, C alto, A baixo, M baixo: paciente em Contemplação, ambivalente. Foco em:
explorar ambivalência,
construir meta realista,
planejar próximas etapas (passagem para Ação).
A alto, M moderado/baixo: paciente em Ação inicial – já engajado em mudanças, mas ainda sem consolidação. Foco em:
estratégias comportamentais,
desenvolver rotinas,
prevenir desistência precoce.
M alto, A moderado, C ainda perceptível: paciente em Manutenção com ambivalência latente, cenário típico de risco de recaída. Foco em:
prevenção de recaída,
identificação de gatilhos,
fortalecimento de rede de apoio e estratégias de enfrentamento.
Planejamento terapêutico e formulação de caso:
Escores altos em PC sugerem trabalhar crenças (“não tenho problema”, “toda família come assim”), externalização da responsabilidade e baixo senso de autoeficácia.
Escores altos em C indicam momento ideal para:
clarificar metas,
negociar objetivos,
usar técnicas decisórias (balança decisional, projeção de futuro).
Escores altos em A justificam foco em:
plano alimentar estruturado,
registro alimentar,
reforço positivo de mudanças em curso.
Escores altos em M recomendam:
consolidar hábitos,
lidar com “pequenas recaídas” sem catastrofização,
treinar habilidades para enfrentar ocasiões de risco (festas, estresse, etc.).
Por favor, leia cuidadosamente as frases a seguir. Cada afirmação descreve a maneira como você pode pensar (ou não pensar) o seu comportamento com relação ao seu hábito de comer. Favor indicar o grau que você concorda ou discorda de cada afirmação. Em cada questão, faça sua escolha pensando em como você se sente agora, não como você se sentia no passado nem como gostaria de sentir.
Existem CINCO possíveis respostas para cada um dos itens do questionário: Discordo muito, Discordo, Indeciso, Concordo e Concordo plenamente. Marque a opção que melhor descreve o quanto você concorda ou discorda de cada afirmação.
McConnaughy, E. A., Prochaska, J. O., & Velicer, W. F. (1983). Stages of change in psychotherapy: Measurement and sample profiles. Psychotherapy: Theory, Research & Practice, 20(3), 368. https://doi.org/10.1037/h0090198
Bittencourt, A. S., Lucena-Santos, P. L., Moraes, J. F., & Oliveira, M. S. (2012). Motivação para mudança:
análise fatorial da URICA para hábitos alimentares. Psico-USF, 17(3), 497-505. https://doi.org/10.1590/S1413-82712012000300016
A implementação do instrumento foi realizada mediante aprovação da Dra. Margareth Oliveira, coordenadora do Grupo de Avaliação e Acompanhamento Psicológico em Contextos Clínicos (GAAPCC), responsável pelos estudos de validação. Informações institucionais adicionais podem ser consultadas no site oficial do grupo (GAAPCC, https://www.gaapcc.com/).