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O Questionário de Fusão Cognitiva (CFQ) avalia o grau em que o comportamento da pessoa está “fundido” com seus pensamentos – isto é, até que ponto pensamentos são tomados como fatos literais e passam a dominar a experiência e a regulação do comportamento. Conceitualmente, está ancorado no modelo de Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT) e na Relational Frame Theory (RFT), em que a cognitive fusion é um dos processos centrais da inflexibilidade psicológica. O CFQ é um indicador transdiagnóstico de vulnerabilidade: escores mais altos associam-se a maiores níveis de depressão, ansiedade, estresse, ruminação, sintomas gerais e pior qualidade de vida, bem como menor mindfulness, decentering e satisfação com a vida.
Tempo médio de aplicação
3 minutos
População-alvo
Adolescentes (> 15 anos) e adultos de ambos os sexos
Usos recomendados
- Avaliar o processo de fusão cognitiva em formulações de caso ACT/terapias contextuais;
- Auxiliar na triagem e caracterização de pacientes com problemas emocionais diversos (depressão, ansiedade, estresse ocupacional, doenças crônicas etc.);
- Monitorar resposta a intervenções baseadas em ACT, nas quais a redução de fusão é uma meta explícita.
1. Estrutura do instrumento:
Número total de itens: 7 itens
Tipo de resposta: Likert de 7 pontos, de “nunca verdadeira” a “sempre verdadeira”.
Organização: Unidimensional (Fusão cognitiva)
2. Descrição do fator (Fusão Cognitiva Global):
Mede o grau em que pensamentos são tomados literalmente como verdade, altamente críveis e dominam a experiência; tendência a ficar “enredado” em pensamentos, a reagir emocionalmente a eles e a ter o comportamento governado por cognições, com dificuldade de observar pensamentos como eventos mentais transitórios.
3. Pontuação e faixas de interpretação (cutoffs):
Soma dos 7 itens; maior escore = maior fusão cognitiva.
Mínimo = 7; máximo = 49.
3.1. Interpretação de escores:
Escore alto: forte fusão com pensamentos, maior probabilidade de acreditar que pensamentos são fatos; reagir com sofrimento emocional intenso às cognições; ter o comportamento rigidamente controlado por pensamentos e ruminações; dificuldade de se distanciar, observar ou “descolar-se” dos conteúdos cognitivos.
Escore baixo: maior defusão, flexibilidade para perceber pensamentos como eventos mentais, com menor impacto direto sobre comportamento e sofrimento emocional.
4. Mudança clínica e sensibilidade:
- O CFQ é adequado para reaplicações seriadas durante o tratamento, sobretudo em intervenções que trabalham defusão/mindfulness.
- Intervalos de 4–8 semanas (ou a cada bloco de sessões) são coerentes com os estudos existentes (teste-reteste em 4 semanas e seguimentos em 5 meses), embora essa periodicidade não tenha sido testada sistematicamente.
- Dada a ausência de RCI, recomenda-se interpretar mudanças consistentes e sustentadas no escore, associadas a melhora clínica global, como potencialmente significativas, sempre integrando com outros indicadores.
5. Cuidados éticos e limitações de aplicação:
Não é instrumento diagnóstico:
O CFQ avalia um processo psicológico (fusão cognitiva), não um transtorno. Não deve ser usado isoladamente para decidir diagnóstico psiquiátrico ou tomada de decisão crítica (por exemplo, aptidão ao trabalho, alta hospitalar).
Necessidade de integração com avaliação clínica completa:
Entrevista clínica estruturada/semiestruturada, história de vida, observação clínica e outros instrumentos (ex.: medidas de sintomas, AAQ-II, escalas de mindfulness) devem complementar a interpretação.
Generalização para população brasileira:
Ausência de estudos específicos com amostras clínicas brasileiras (ex.: pacientes em tratamento psiquiátrico) é uma limitação importante.
6 . Sugestões para análise clínica:
a) Formulação de caso
Escores elevados de CFQ sugerem que o sofrimento do paciente é fortemente influenciado por:
ruminação e sobreanálise (brooding);
crenças fortes de que pensamentos são verdadeiros ou perigosos;
padrões rígidos de evitar, controlar ou obedecer aos pensamentos.
Dado que o CFQ se correlaciona fortemente com depressão, ansiedade e estresse, mas sem ser redundante com esses sintomas, ele ajuda a diferenciar “nível de sofrimento” de “processo de fusão que mantém o sofrimento”.
b) Planejamento de intervenção
Em pacientes com CFQ alto + depressão/ansiedade elevados:
Priorizar intervenções de cognitive defusion, mindfulness e descentramento.
Utilizar o CFQ como indicador proximal da efetividade dessas técnicas: redução de fusão deve, idealmente, acompanhar melhora de sintomas.
Em pacientes com fusão alta, mas sintomas moderados, o foco pode ser:
aumentar engajamento em ações guiadas por valores, mesmo na presença de pensamentos difíceis;
explorar se a fusão está limitando decisões de vida importantes (relacionamentos, carreira, saúde).
c) Combinação com outros instrumentos
AAQ-II (inflexibilidade psicológica):
Dado o alto r entre CFQ e AAQ-II, mas com evidência de que o CFQ acrescenta variância em sofrimento e sintomas, o uso conjunto ajuda a diferenciar:
inflexibilidade geral (AAQ-II) vs.
fusão especificamente cognitiva (CFQ).
Escalas de sintomas (DASS-21, HADS etc.):
Permitem verificar se um alto CFQ está associado a quadros sintomáticos clínicos ou subclínicos, auxiliando na decisão de intensidade de cuidado (psicoterapia, encaminhamento psiquiátrico).
d) Indicadores de maior prejuízo funcional
Escores elevados de CFQ combinados com:
alta ruminação (RRS),
alta depressão/ansiedade/estresse (DASS ou equivalentes),
baixa satisfação de vida/qualidade de vida,
podem indicar alto risco de manutenção de sofrimento crônico e maior necessidade de intervenções estruturadas e de maior intensidade.
A seguir, você irá encontrar uma lista de afirmações. Por favor, classifique a frequência com que cada afirmação é verdadeira para você, indicando a opção correspondente.
Gillanders, D. T., Bolderston, H., Bond, F. W., Dempster, M., Flaxman, P. E., Campbell, L., … Remington, R. (2014). The development and initial validation of the cognitive fusion questionnaire. Behavior Therapy, 45(1), 83–101. https://doi.or/10.1016/j.beth.2013.09.001
Lucena-Santos, P., Carvalho, S., Pinto-Gouveia, J., Gillanders, D., & Oliveira, M. S. (2017). Cognitive Fusion Questionnaire: Exploring measurement invariance across three groups of Brazilian women and the role of cognitive fusion as a mediator in the relationship between rumination and depression. Journal of Contextual Behavioral Science, 6(1), 53–62. doi:10.1016/j.jcbs.2017.02.004
Peixoto, E. M., Lucena-Santos, P., Pimentel, R. H. R., Ferreira, J. E. A., & Peixoto, J. L. B. (2019). Questionário de Fusão Cognitiva (CFQ): novas evidências de validade e invariância transcultural. Psico, 50(1), e27851. https://doi.org/10.15448/1980-8623.2019.1.27851
A implementação do instrumento foi realizada mediante aprovação da Dra. Margareth Oliveira, coordenadora do Grupo de Avaliação e Acompanhamento Psicológico em Contextos Clínicos (GAAPCC), responsável pelos estudos de validação. Informações institucionais adicionais podem ser consultadas no site oficial do grupo (GAAPCC, https://www.gaapcc.com/).